sábado, 14 de maio de 2016

Sem inspiração




Hoje acordei mais cedo que de costume já pensando o que iria escrever. Sentei-me  na frente do computador abri o programa que normalmente escrevo. A folha em branco surgiu na frente dos meus olhos como dos outros dias, o cursor piscava em uma velocidade que não estava acostumada, ou não o observei minuciosamente das outras vezes. Digitei o título como sempre, pois é dessa maneira  que começo a escrever. É estranho? Talvez, no entanto com o título gritando para os meus pensamentos confusos e complexos é que me concentro no que realmente quero  passar para a folha em branco.

Nesse dia escrevi parágrafos e mais parágrafos, os mesmos eram desconexos não faziam parte do eu cadeirante ou romântica, a vida estava em pausa como o cursor piscando freneticamente na minha frente. O delete foi a tecla que mais usei para apagar todos os erros e também os acertos de um texto que não saia da minha caixa preta: a memória.

Na vida não existe rascunho ou delete para poder apagar todos os erros, as chances que deixamos escapar entre nossos dedos. Não podemos passar a limpo, temos somente o agora para fazer nosso melhor. Não importa se pensamos que é clichê ou não. Não podemos ficar sem inspiração para escrever a história na nossa vida, cada segundo que passa mais e mais cobranças que irão aparecer na nossa frente. A vida é fácil e ao mesmo tempo muito tênue.

Não temos noção do que fazer e quase sempre demoramos muito para entender quem somos,  e todas as dificuldades que passamos para podermos acumular experiências vividas.  Porém, um  dia será lembrada como quem contasse uma história infantil.

Mesmo com o cursor piscando, escrevi algo, mesmo sem inspiração a vida continua lá fora. Buzinas por todos os lados, é audível o barulho e a entonação da paciência esgotada.  Às vezes precisamos de calma, tempo, precisamos do ar que está lá fora nos dias nublados. Nós somos apenas humanos vivendo em um mundo cada vez mais louco: precisamos de paz, de vida, da tranquilidade que nos aquece, do sol que nos renova. Mesmo sem inspiração consegui escrever essas pequenas palavras. Eu estou escrevendo um livro: de alguns sentimentos relapsos. Desculpe aí, eu também sou humana e a inspiração me faltou em um dia de outono.

Publicado originalmente no Jornal: A Novidade.


domingo, 8 de maio de 2016

O reencontro (Natasha)



Natasha saiu daquele bar com o coração leve e suas muletas pareciam flutuar pela noite estrelada. Ele foi embora e ela quis caminhar sozinha até sua casa, mesmo com um pouco de dificuldade seria bom sentir o ar da noite, o frescor daquele dia que começou não como ela imaginava e terminou com uma surpresa. Lembrou-se de todos os sons e cheiros que aquele bar transmitiu apenas em uma noite amena do mês de abril. Seguiu até sua casa com um sorriso discreto nos lábios e uma ponta de esperança que tudo poderia mudar depois daquele dia.

Em casa, colocou a bolsa sobre a mesa da cozinha e foi direto para o quarto, se jogou na cama, cansada, exausta pelo dia, porém feliz por ter conhecido o homem dos olhos cinzentos cujo nome não lembra direito. Tiago, Daniel? Pensou. Adormeceu ali mesmo sozinha, no seu pequeno apartamento de quarto e cozinha.

O despertador soou as 06h30min da manhã, ela abre os olhos e checa o celular, algumas mensagens, só que não tem tempo agora. Levanta, toma banho, se apronta e sai pelo ar da manhã para o trabalho, as pessoas passam por Natasha e a mesma quase nem percebe de tão automático que se dia começa. Ela sorri como nunca sorriu antes e as pessoas que passam por Natasha  retribui o sorriso, como se transmitisse uma luz interior.  Enfim chega ao trabalho mais sorridente do que nos outros dias.
Natasha trabalha em uma loja de roupas retro, um brechó, gosta do que faz e se sente realizada por ter encontrado aquele lugar que lhe faz bem. Sua vida é a mais básica possível, sai às vezes com algumas amigas para beber e sua maior distração é ler.  Escreve algumas poesias, porém tem dificuldade de mostrar para alguém. Na verdade a vida de Natasha é um livro com um cadeado, quase ninguém sabe onde mora se tem parentes, ou o que gosta de fazer nos dias frios de outono quando as folhas das árvores já começaram a cair.

O trabalho corre como de costume, um cliente a procurou, pois queria uma boina, outra uma fantasia legal, e o carnaval já acabará faz tempo. Outro pediu uma calça azul escura e por fim uma mulher  queria encontrar um vestido legal e barato, pois seria madrinha de um casamento da alta sociedade.
Na volta para casa Natasha passou pelo bar e ficou olhando pelo vidro, as mesas se enchendo novamente e rezou com uma força descomunal para que seus olhos o encontrassem novamente. De repente se sentiu solitária naquele lugar, às vezes sentia como se fosse sua segunda morada, mesmo não conhecendo as pessoas daquele bar, era a sua  casa. Ela baixa a cabeça e olha para suas botas pretas, sujas e gastas, então uma mão toca seu ombro e sente um cheiro familiar.

Vira-se para olhar para o dono do toque em seu ombro e suas pernas sofrem um espasmo ao ver aqueles olhos cinzentos penetrantes. Ela se segura nele para não cair. Daniel lhe pergunta se sente bem. Novamente encontra  aquele olhar que não saiu da cabeça a noite inteira e responde que sim. Os dois saem andando e ao mesmo tempo a cor quente do sol que se despede daquele dia que foi o mais longo de sua vida. Ele anda devagar para lhe acompanhar. Até que em uma praça avistam um banco e sentam-se: conversam e conversam.   Em um gesto distraído suas mãos se tocam e ela sente o choque da pele dele contra a sua, fecha os olhos e aproveita o momento que se eterniza na sua alma de menina estranhamente romântica debaixo das vestes de Natasha.

Texto publicado originalmente no Jornal: A novidade

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Procura-se




Em um jornal da cidade na página de classificados com modestas letras grifadas em negrito ele está lá: o recado. Procura-se um coração que não seja maltratado pelo tempo e que as marcas do tempo já estejam apagadas. Que seja leve e que não procure perfeições. Procure-se um coração desajeitado e com olhos brilhantes e de sorriso aberto. Deve ser altruísta, jamais egoísta e deve realmente querer se entregar. Procure-se um coração sujeito a muitas emoções, e irá acelerar frequentemente por tantas sensações.

Existem corações de todos os tipos formas e tamanhos, aqueles que tomam vinho tinto diariamente para esquecer-se do vazio causado por alguma decepção. Há corações tímidos, alegres e insensatos. Corações que adoram o silêncio e também aqueles que riem de dentro para fora com vontade, pois cada risada é um impulso de alegria lá dentro do peito.

Em um mundo cada vez mais visual, onde a imagem fala mais alto do que os sentimentos.  A procura de corpos perfeitos se torna cada vez mais severa, frenética. E os sentimentos onde ficam? Corações em silêncio exuberante,  em branco  como uma folha de papel precisando ser preenchidos por poesia démodé.  Na loucura do dia a dia o sentimento não é mais prioridade. Há corações esfacelados, solitários aos montes.

Não saberia identificá-lo, talvez os olhos brilhantes seja uma pista que ele está por perto. A cor dos olhos? Seria como duas jabuticabas de tão doces quanto seu olhar penetrante. Seus olhos irão piscar na mesma velocidade tamanha sincronicidade.  Os sorrisos irão se abrir na mesma proporção pela felicidade momentânea. As mãos ficarão frias ou suadas e você não se reconheceria mais por tantos acontecimentos frequentes  de transformações. O barulho será imenso, pois os dois corações irão se reconhecer e causarão um atordoamento gigantesco na calma que estamos acostumados. Agora é hora de fechar o jornal e sentir a emoção de dois olhos que brilharam no primeiro encontro.

Texto originalmente publicado no Jornal: A Novidade




sexta-feira, 15 de abril de 2016

O dia



Já escrevi aqui sobre ser você, suas escolhas durante a vida que irá repercutir em algum momento em sua história.  Tem dias que você parece que está dentro de uma cápsula e irá para o espaço e ficará um ano por lá adormecida. Infelizmente não é assim que a vida funciona. Levantei com o mais pesados dos dias me arrastei com a cadeira durante todo o dia e o pensamento em algum lugar tão distante que eu não reconheceria o nome Terra se lesse em algum jornal.

Fiquei em silêncio, pensando na vida, nas ocupações e preocupações do dia a dia. O silencio foi só meu, ninguém soube ou percebeu. Ninguém imaginou na culpa que a gente sempre carrega que podia ter feito alguma coisa melhor, podia ter lido mais, podia ter reescrito novamente o texto antes de mandar para o jornal. São cobranças, culpas e sentimentos que atravessam o coração e nos deixam tão fragilizados quanto um bebê de colo.  Cada impulso da cadeira foi uma força descomunal. Desculpe, porém há dias que estamos assim.

 Há alguns momentos que percebemos que somos de carne e osso e somos humanos, talvez mais humanos que acreditamos em ser. Sofremos, sonhamos, desacreditamos e nos conduzimos para um lugar que não existe em nenhum outro lugar, a não ser dentro de nós. É nesses momentos que percebemos que a vida segue principalmente dentro da gente e precisamos ocupar os espaços em brancos que sempre teimam a nos perseguir.  

Esses dias são necessários para acreditar, sonhar e nos conduzir a algum lugar, talvez até melhor. É nesses momentos que tomamos decisões importantes como: Cuidar da saúde, fazer aquele curso que há anos você está querendo. Eu sei que há momentos que o sentimento de desistência invade nosso ser de uma forma brutal. Por favor, não desista, tente mais uma vez.


Não importa que estamos tão vulneráveis e nos sentimos incompetentes, melhor ter dias assim, do que ser qualquer coisa. Não duvide de você, dos seus sonhos e principalmente nunca deixe de ser você, mesmo que o dia esteja pesado demais. Tudo passa e amanhã será outro dia.

Publicado originalmente no Jornal: A novidade

sábado, 9 de abril de 2016

O encontro de Natasha

Ela estava sentada no bar com sua vodka forte em um copo, cigarro nos dedos e a fumaça enchendo o ambiente que estava meia luz. Várias mesas cheias de casais, amigos que riam, bebiam, contavam histórias e  ela ali sentada, sentindo-se um pouco sozinha. Vestia uma calça jeans rasgada, tênis preto, camiseta preta e uma jaqueta fina, já que o ar da noite estava suportável. Batom vermelho, o rímel passado exageradamente e a maquiagem que marcava os olhos grandes de olhar penetrante.

Ele também sozinho na outra ponta do bar, olha o celular, checando algum e-mail que chegará. Todo certinho, bebia sua cerveja sem álcool, estava ali de passagem. O dia estressante no trabalho precisava de um lugar para relaxar, tomar algo gelado, ver gente. De repente seus olhares cruzam por relances, ele a olha de cima a baixo. Confere  o celular novamente para disfarçar e imagina o que aquela moça estará pensando. Será que seu trabalho também fora estressante, talvez também se sentisse sozinha como ele. Pensou em que nome ela teria: talvez- Natasha, Verônica. O que absorvia da vida, o que ela esperava das coisas mais simples. Será que ela sempre se vestiu assim?

Ele toma coragem, coloca o celular no bolso, pega o casaco e a cerveja e vai em direção à mesa dela.

 Vi que você está sozinha, posso me sentar na sua mesa?  

Ela olha para os olhos cinzentos e observa o quão seus olhos parecem um lago de águas mornas e escuras e um pouco atordoada responde que sim.
Os dois naquele bar, a música ao fundo, o jazz que tocava suavemente enquanto os dois trocavam gostos peculiares, trabalhos e sonhos. A cerveja, a vodka e o cheiro de cigarro estavam impregnando seu ser, no entanto ele estava gostando de toda aquela confusão de cheiros e gostos. Ela se sentiu confortável perto dele, gostou de como o som da sua voz se entonava dependendo do que ele falava. Ele viu que debaixo daquela maquiagem pesada existia alguém que um dia fora diferente. Atrás de toda aquela rebeldia existira uma garota romântica, talvez maltratada pelos relacionamentos sem sucesso. Cada palavra que ela falava e cada pensamento bobo eram como músicas em seus ouvidos. De repente suas mãos se tocam num relance e seus olhares se cruzam no mesmo segundo, uma energia boa percorre a alma dos dois. Retribuem com um sorriso sem graça.

Com o passar das horas já se tornaram amigos de infância ou (até mais). Trocam números de  telefones,  ela se despede dele. Quando se levanta da cadeira e se acomoda nas muletas que estavam encostadas na outra mesa, ele leva um sobressalto. Talvez, agora entendesse um pouco da garota que com o nome de Natasha.  Sem graça oferece ajuda, ela responde que se vira bem. Os olhos dos dois se encontram novamente intensos, como o calor do café em um dia ameno. O cheiro ainda é inebriante: do bar, do álcool misturado com o calor humano, o perfume dos dois- agora mais perto. Natasha percebe que suas mãos ficaram  escorregadias ao toque do plástico das muletas. Nunca antes  se sentiu assim.   O homem dos olhos cinzentos encosta a mão em seu braço e lhe diz: Quero te encontrar novamente. Natasha percebe que já é amor.


 Publicado originalmente no Jornal: A Novidade

sexta-feira, 1 de abril de 2016

A garota intermediaria


Ela não sabia do que gostava, ou amava. Suas cores eram a mais básica possível: preto e branco.  Não ousava - Gostava dos mesmos discos e livros, os autores eram os mesmos desde a adolescência. Tinha a ilusão de ser diferente por gostar das mesmas coisas, sempre. Não se importava com nada, sabia ser ela mesma nos momentos mais difíceis.

Não ousava usar nem mesmo uma cor mais berrante, sua maquiagem sempre foi à mesma, o batom claro, a sombra rosa e um blush para disfarçar a falta de cor. Adorava sorvete de creme com calda de chocolate, nunca experimentou outro sabor. Sua comida predileta foi a mais normal possível: lasanha de quatro queijos. Nem a cor do cabelo mudou, preferiu ficar na mesmice todos os anos que se passaram. Gostava de música clássica, bebia somente vinho tinto suave.

Tinha um gosto esquisito por caras adultos românticos, poetas e músicos desconhecidos.  Só que ela não esperava conhecer alguém que a aceitasse mesmo com suas loucuras internas. Ela o encontrou no meio dessa confusão de "intermediarismo" que causou um transtorno em sua vida. Ela se sentiu de um jeito extremamente diferente. Passou a usar cores, muitas cores no seu guarda-roupa, logo ela que nunca se sentiu confortável com as diversas e infinitas cores desse mundo. Passou a frequentar lugares diferentes, teatro, cinemas, cafés e até Pubs.

Ele mostrou através dos seus olhos e dos diversos sentidos que o mundo não se resumia a tons pastel. Ela precisou gritar para o mundo e renascer de dentro dela mesma. Precisou amar de um jeito que a mesma nunca imaginou. Conheceram lugares diferentes, cheiros cítricos até suaves. Experimentou sabores amargos, doces até apimentados. Tocou todas as texturas possíveis, desconhecidas pela sua pele sempre tão morna. Ouviu músicas que jamais seus ouvidos escutaram algum dia. Ela saboreou, olhou, tocou, experimentou, arrepiou e no fim- se extasiou!  

Ele fez ver que a vida não pode se resumir no intermediário. Precisamos ousar o olhar além do que nossos olhos conseguem enxergar. Precisamos querer sempre mais da nossa vida e o mais importante: Nunca mesmo nos conformar com qualquer situação que seja. A vida é bonita, e precisamos sempre, sempre mesmo acreditar que tem algo a mais lá na frente. Apenas precisa-se um pouco de paciência e vivenciar da forma mais genuína possível.


Publicado originalmente no jornal: A novidade