terça-feira, 13 de setembro de 2016

Dois




Estou aqui, enquanto escrevo esse texto para vocês degustando um pedaço de chocolate meio amargo. Você pode me perguntar porque escolhi o meio amargo? Eu lhe respondo que sempre preferimos um equilíbrio. Nesse caso é no equilíbrio que vamos vivendo, sentindo, realizando, as emoções, os sentimentos, os motivos.

Você pode preferir o amor de todas as estações possíveis, e pode ter certeza que até o amor tem personalidade. Vai desde o mais atormentado, e passa pelo equilibrado chegando no calmo. A gente passa por muitas experiências na vida, tanto amorosa, quanto familiar até profissional. Em todos os casos o amor está presente no nosso cotidiano. No entanto, o amor entre duas pessoas é o que mais nos afeta drasticamente. Passamos por momentos que nunca pensamos presenciar na vida, sofremos, amamos e aprendemos que quando o amor chega de verdade nos muda completamente.

Eu prefiro os calmos e sem sucesso com muito amor no coração, daqueles que tem braços compridos e você cabe dentro dele em um dia difícil. Prefiro os olhos calmos e profundos, daqueles que existe uma sinceridade e percebe-se que a verdade daquele olhar que vai te acalmar em dias de tormentas. Prefiro os de sorrisos largos e riso frouxo, vozes que ficam pela casa, o cheiro que fica impregnado nos lugares mais inacessíveis. Prefiro aquele que divide uma pizza em um dia mudança, onde as taças estão empacotadas e o vinho vai parar dentro das primeiras canecas encontradas nas caixas da mudança.


Prefiro a casa quase vazia, onde os móveis vão tomando o lugar da vida dos dois, prefiro aquele sorriso e a música ao fundo daquele lugar que agora irá se tornar plural. Não se compare, não sofra antecipadamente, tudo chega na hora exata das horas e o tempo não falha. E no dia marcado quando for dormir e saber que no dia seguinte o amor ainda estará do seu lado. Você vai sentir paz no coração, tranquilidade e o equilíbrio de ser dois e não apenas um. 

Texto publicado originalmente no Jornal: A Novidade.

O Improvável (Final)

Depois do braço que Ana e Luiza trocaram as duas sentiram que não poderiam negar o que elas estavam sentindo naquele momento. Ana sentiu o coração de Luiza disparar enquanto as duas trocavam os afagos mais importantes das suas vidas. Nada naquele momento importava, as pessoas ao redor que passavam e admiravam as duas meninas, a lua que compactuava com aquela emoção, as estrelas que brilhavam mais naquela noite em que seus corações se apaixonaram.
Luiza sentiu o cheiro de álcool que Ana exalava e falava para ela não ir, pois era noite de sexta e ela poderia ficar mais para fazerem alguma coisa juntas.  Luiza concordou em ficar e as duas saíram pelas ruas da cidade escura, embriagadas e felizes. Não pensavam em mais nada só ficar na companhia uma da outra. 

Procuraram algum bar aberto naquela cidade pequena que já passava da meia noite, não encontraram nada. As duas estavam famintas e o efeito do álcool estava indo embora.
Encontraram um food truck que preparava um cachorro quente com um molho especial. Sentaram-se em uma mesa disposta e começaram a conversar com mais seriedade. Se deliciaram com a comida. Ana confessou que fazia muito tempo que não se sentira tão feliz ao lado de alguém. Entre vinhos e cachorro quentes, coisas simples, porém importantes ao lado de Luiza. Luiza sorriu e seus olhos encheram de lágrimas sinceras, que também confessou que jamais imaginara se sentir daquele jeito ao lado de Ana.

Ana se comoveu com as palavras de Luiza e sabia que ela sempre foi uma menina fechada para o mundo, para as coisas da vida e aquelas palavras tocou o coração de Ana de um jeito simplesmente atormentador para o lado bom. Ana enxugou as lágrimas que escorriam pelo rosto de Luiza e a mesma segurou a mão de Ana e a beija em um gesto de carinho. Ana fala que deseja ver Luiza mais vezes, na verdade todos os dias e as duas gargalham e a noite já se transformou em dia.


Elas saem andando pelas ruas vazias com as mãos entrelaçadas, o sol aparece e aquece o amor que estavam sentindo naquele momento. Elas se sentem realizadas, os sorrisos entregam o melhor presente que a vida lhes trouxe: O amor. Ninguém duvida que foram muito felizes, compraram uma casa com janelas brancas e um jardim florido. Anos mais tarde Luiza deixou seu emprego no banco e escreveu seu próprio romance, dizem que até hoje continua escrevendo olhando as roseiras brancas do seu jardim. Ana fez faculdade de moda e se dedica a desenhar roupas para pessoas com deficiência. As duas se casaram em uma tarde de verão e até adotaram uma menina que leva o nome de Laura.  E você, ainda duvida do amor entre essas duas? Elas mandam notícias e incentivam a nunca desistirem do que você realmente acredita. O amor nos muda, move o mundo em que vivemos. Acredite sempre! 

Texto impresso originalmente no Jornal: A Novidade. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O Improvável (Parte II)



Mesmo ainda não lendo uma frase do livro: o invisível, e o telefone insistia em tocar.  Luiza pega o telefone e coloca no seu ouvido e fala:
 - Alô! Do outro lado ouve uma voz suave e pausada pronunciando o seu nome por inteiro que quase ninguém a chamava assim, somente sua mãe. Maria Luiza é a Ana. Lembra de mim?
-Sim, claro.
-Então, estava pensando que podíamos sair para tomarmos alguma coisa e conversar sobre as aplicações que quero fazer. Você poderia me indicar qual seria a melhor, lucros e valores.
Luiza pensa consigo que Ana foi bastante perspicaz com aquela desculpa, mais mesmo assim aceita.

As duas marcaram de se ver em um bar perto da casa de Luiza, ficava duas quadras dali. Ela se arruma com a primeira roupa que encontra no seu armário, Luiza nunca foi de muitas peças de roupas, ela gosta do básico, uma calça jeans camiseta florida e um tênis de alguma marca desconhecida, sempre os náuticos, levou um cardigã pois a noite estava fria.

Quando chegou ao bar Ana estava sentada a sua espera, ela estava magnifica em um vestido preto e jaqueta da mesma cor, Luiza se sentiu estranha em pensar em Ana daquele jeito.  Na mesa, uma água com gás, um copo vazio, celular e vários pertences de Ana jogados, bloco de notas, canetas. Ela sentou-se e sentiu familiar a toda aquela situação de um jeito que nunca imaginou sentir antes.

Por incrível que pareça as duas não tocaram no assunto banco e investimentos. O foco da conversa foi outro, livros, música, trabalho, o que queriam da vida, suas perspectivas e assim a conversa rolava solta. Pediram vinho tinto suave, Luiza pensou consigo que as duas tinham bastante coisa em comum. Elas riam, conversavam e cada minuto que passava a conversa fluía de uma magnitude indescritível. Elas se sentiam felizes por encontrar uma a outra e o álcool já perfumava o hálito das duas.

Depois de algumas horas, perceberam que o bar já estava fechando, pagaram a conta e saíram daquele lugar. Luiza agradeceu por ser sexta-feira e por isso poderia ficar até mais tarde na rua naquela noite de agosto. Elas se sentiam felizes, talvez Luiza não teria consciência de tudo que estava por vir desde aquele encontro de olhares em um dia comum de trabalho.

As duas andavam lado a lado pela noite escura, a cidade estava vazia, e o vento esvaziava as folhas das árvores. De repente Luiza fala para Ana que precisa ir, já está muito tarde. Ana olha com aquele olhar doce e Luiza não se contém, as duas se abraçam na despedida e o abraço dura mais que deveria. Ana sente os dedos de Luiza em suas costas, o afago que esperou por toda a vida.  

Texto publicado originalmente no Jornal: A Novidade.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O improvável


Luiza sempre foi muito solitária, gostava dos dias frios, dos livros, romances, qualquer um que estivesse ao seu alcance. Ficava horas e horas jogada no chão lendo, ela sempre foi do tipo de garota que entrava literalmente dentro do livro, se via em vários romances que lia e se apaixonava. Luiza, criara até algumas listas dos livros e personagens que ela admirara durante a sua vida de leitora.

Luiza não se importava com a vida aqui fora, tinha um emprego razoável em um banco. Gostava de ir ao cinema sozinha quando algum livro era adaptado para a telona. Gostava de ficar na última fileira do cinema, onde ninguém a encontrava ou incomodava. Ela vivia em um mundo apenas dela.
Só que Luiza não esperava que seu castelo de cartas montadas poderia cair em algum momento. Em uma quarta-feira cinzenta com chuva caindo naquela cidade grande, onde as pessoas corriam e os guardas chuvas faziam a cidade multicolorida. Ela estava ali sentada no caixa fazendo seu trabalho mecanicamente como todos os dias. Contas, boletos, depósitos tudo ao seu redor até que um bom dia de uma voz doce lhe chamou atenção.

Ela arregalou bem seus olhos verdes, e a encarou, a moça do outro lado do balcão pediu para que ela fizesse a transferência de uma quantia em dinheiro. Ela demorou a entender e a cair em si. A beleza de Ana Flor tomou conta da cabeça de Luiza, a mesma se sentiu incomodada com toda situação. Depois da troca de alguns olhares: Maria Flor lhe pediu seu número e disse que se desse algum problema com a transferência poderia lhe procurar. Ela não conseguiu nem pensar, quando percebeu já estava entregando o papel com o número do seu telefone para a moça.

Quando chegou em casa Luiza estava atordoada com tudo que acontecera naquela manhã. Ela nunca fora tão imprevisível assim, sempre pensara tanto nas suas ações, como poderia ter feito aquilo. Entregar seu número de telefone para uma estranha que nunca viu na vida. Ela sabia que alguma coisa muito forte estava por vir, estava com medo do que sentiu ao ver Ana naquela manhã. Sempre sonhou em encontrar um dos personagens de seus livros e agora a vida dera um susto nela. Luiza estava com muito medo, no entanto ela sentia uma emoção forte só de imaginar Ana.
Pegou uma taça, encheu com vinho tinto suave, sentou-se no chão e começou a folhear: O invisível de David Levithan e Andrea Cremer, quando chegou na página do primeiro capítulo o telefone toca e seu coração dispara.

Texto publicado originalmente no Jornal: A Novidade 


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

O Desfecho



Os dois estavam em um dia comum, até que ele falou para ela que não era bem aquilo que queria para sua vida. Precisava pensar sobre o relacionamento longo dos dois e das coisas que o mesmo acreditava e almejava para sua vida. Ela se pós em lágrimas e não sabia mais o que dizer e fazer. Ele a abraçou forte e seus olhos estavam rasos, ela o olhou novamente e perguntou se era mesmo isso que desejava. Ele fez sim com a cabeça e os dois ficaram ali abraçados por um tempo, até que ele falou que precisava ir. E se foi.

Uma semana depois os objetos dele foram encaixotados, suas roupas, tudo e ela mandou entregar na casa dos pais dele. Ainda tinha a sua presença pela casa, o cheiro dele impregnava tudo, as lembranças eram recentes. Aquele apartamento foi escolhido pelos dois. Ela resolveu vender e comprar algo menor, mais a cara nova de sua nova vida.  Começou a fazer coisas que sempre deixara para seu último plano. Mas as lembranças de felicidade ao lado vinham e iam como flashes. Ela pensou consigo e prometeu que iria ser feliz, talvez de um jeito diferente do que imaginou um dia, no entanto ele não estaria mais em seus planos e essa seria sua nova realidade e a mesma tinha que adotar isso para seguir em frente.

Recomeçou a fazer yoga, e até se matriculou em um curso de fotografia que a mesma deixou para trás. Mudou de emprego e recomeçou a fazer uma especialização. Foi mais ao cinema, leu mais livros, ouviu suas músicas prediletas, e até compreendeu que ter sua própria companhia era agradável. Conheceu alguns caras de personalidades variadas, aprendeu ser menos exigente consigo mesma. Voltou até andar de bicicleta e sentir o vento batendo no rosto. Comprou um peixe para seu aquário que há anos vivia vazio. Estava vivendo do seu jeito, sem pensar na possibilidade do que iria acontecer amanhã.


Nessas andanças de aprender coisas novas, em um dia qualquer depois de alguns anos conheceu Augusto um homem simpático. Saíram algumas vezes como amigos, de pouco a pouco, Augusto ia a conquistando, ela sentira diferente com ele, depois de tantos caras, tantas tentativas frustradas. Ela não estava procurando mais ninguém, somente um livro em uma livraria. Ela reconheceu que Augusto fazia rir de uma maneira que nenhum outro a fez, ele a surpreendeu e quando se deu conta já estava apaixonada. Então ela escreveu em seu diário com letras grafais – que estava muito feliz e nunca imaginou que a felicidade iria transbordar seu pequeno coração. 

Texto publicado originalmente no Jornal: A Novidade.

domingo, 21 de agosto de 2016

Experiências



Experiências são resultados da nossa ousadia na vida, sem ter medo de seguir em frente. Toda experiência é válida seja ela boa ou má, assim nós humanos crescemos e nossa imaturidade fica cada dia mais longe do nosso convívio. Toda experiência faz bem para a alma e espírito, seja qualquer forma de vivenciar: amorosas, financeiras, pessoais, interpessoais e lá vai um emaranhado de vivências.

Às vezes nós temos medo de seguir em frente em alguma situação, pois uma das nossas experiências foi decepcionante. O medo faz parte de muitas situações em que iremos viver. Se tudo fosse flores, simplesmente a vida não teria graça. Temos que lutar para conquistar o que um dia almejamos e quando conseguimos ai sim, você vai sentir o coração leve e a alma flutuante.

Queríamos que a vida fosse como um eletro doméstico que compramos em uma loja, no começo não sabemos nada dele, pois lendo o manual e com o tempo tudo se torna prático e fácil. Só que a vida não vem com manual de instruções para podermos seguir. Cada um leva a vida da sua melhor  maneira possível, erramos aqui, acertamos ali e vamos seguindo em frente. Trancando nossas experiências boas em um pote de vidro vazio e soltando todas as que nos machucaram para que vento leve embora.

Não podemos julgar outra pessoa por suas decisões, cada um faz a sua história, o seu livro de lembranças, experiências, acontecimentos que irão levar para a vida inteira. Nós temos uma porcentagem de decisões que temos que tomar todos os dias e que podem provocar consequências em uma vida. No entanto, somos um amontoado de experiências que vivemos todos os dias, quanto mais melhor para podermos contarmos todas as histórias engraçadas, alegres e tristes independente de qualquer situação histórias são sempre histórias.



sexta-feira, 29 de julho de 2016

Reencontro de olhares






Depois daquela troca de olhares no metrô Olga e Carlos não conseguiram mais esquecer um do outro. Carlos imaginava o que Olga fazia e o que gostava, quais seriam seus sonhos, suas dúvidas. Sua cabeça estava cheia de perguntas que se um dia tivesse chance de reencontrá-la novamente seria bombardeada por elas. Já Olga não parava de pensar porque motivo aquele homem provocou tanta perturbação nela. O tempo estava passando depressa demais e os dois não tinham nenhuma notícia um do outro. Ela passou algumas madrugadas na frente do computador pesquisando pessoas nas redes sociais, no entanto seria quase impossível encontra-lo já que não sabia nem o nome dele.

Uma manhã de quarta – feira como outra qualquer ela saí cedo para o trabalho, e estava na plataforma reservada para cadeirante esperando o metrô com seus fones de ouvido ouvindo uma música qualquer. Carlos a avista e corre para alcançá-la, quando chega perto oferece ajuda, ela aceita, só que Olga ainda não visualizou o rosto de Carlos. Quando ela estaciona a cadeira de rodas no seu lugar reservado, coloca o cinto e vê o rosto dele seu coração dispara de tanta emoção. Ela agradece pela ajuda e os dois começam a conversar sobre as coisas corriqueiras do dia: tempo, seus nomes, onde trabalham e onde moram. Trocam números de telefones, assim não podem se perder mais um do outro. Foi sorte grande os dois estarem ali, lado a lado, naquela cidade grande, cheia de gente, de vidas, de caminhos. 

O dia passa e eles começam a trocar mensagens na hora de folga dos mesmos. Marcam um encontro a noite em um restaurante com acessibilidade é claro, já que Olga é cadeirante e Carlos é um homem muito sensível. Ele vai pegá-la depois o trabalho, tem alguma dificuldade em desmontar a cadeira e colocar no táxi, ela lhe dá as instruções e tudo acaba bem. Eles tomam vinho e comem massa e conversam e conversam....  Todos os assuntos possíveis entram naquela mesa, Carlos fala do seu sonho de uma casa com janelas grandes e flores amarelas nos jardins. Olga fala de sua pós-graduação e que não teve muitos relacionamentos, sua vida foi mais focada nos estudos. Depois de duas horas de muita conversa eles saem do restaurante, ele se oferece para empurrar sua cadeira, ela aceita com um sorriso no olhar. 

Os dois  resolvem andar um pouco pela noite, as luzes da cidade ainda acessas, bares, restaurantes, pessoas bebendo, sorrindo, gesticulando e os dois caminhando como uma sombra em uma noite de luar. Eles param em um parque, cheio de gente, crianças andando de skate, bicicletas por todos os lados. Carlos senta em um banco empoeirado e mal conservado para ficar da altura de Olga. Ele não para de olhar para aqueles olhos cor de mel, que nunca esquecera. Suas mãos tremem, ele alcança seu rosto e olha bem no fundo dos seus olhos, a meia luz do parque ajuda, ela fecha os olhos e se entrega - eles se beijam. 

Texto publicado originalmente no Jornal: A Novidade.